4.4.15

PUTAS ASSASSINAS roberto bolaño


Em sua última entrevista, perguntaram ao Bolaño se ele, alguma vez, tinha visto a mulher mais bonita do mundo. Eu não lembro o que ele respondeu. Mas eu a vi, antes de ontem. Estava sentada em uma das cadeiras de espera, nos Correios. Usava um vestido florido, tinha os cabelos castanhos mas eu não me lembro dos olhos. Sim: eu esqueci como eram os olhos da mulher mais bonita do mundo. Passei por ela, fui até minha caixa postal, abri a portinha: não havia nada lá dentro para mim; voltei, passei de novo por ela, fui embora.

Eu devia ter dito algo sobre Putas assassinas há muito tempo. Terminei o livro há mais de três meses. Mas estou atrasado: não em ler, mas em escrever sobre ler. Outro dia ela me disse que esteve por aqui, pelo blog, mas que ele está tão ermo, tão parado que lhe roubaram a carteira. Este espaço ficou perigoso então. Isso tudo por causa de um livro que vai sendo escrito e reescrito, algumas páginas a mais todas as manhãs, e que nunca fica pronto.

11.1.15


(Daí eu penso que já passou da hora, sim, pelo amor de deus, quando é que nós vamos andar de bicicleta juntos de novo.)

28.12.14


"As mulheres são putas assassinas, Max, são macacos enregelados de frio que contemplam de uma árvore doente o horizonte, são princesas que procuram você na escuridão, chorando, indagando as palavras que nunca poderão dizer. No equívoco vivemos e planejamos nossos ciclos de vida."

(Roberto BOLAÑO, Putas assassinas, trad. Eduardo Brandão, São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 120.)

27.12.14

LIVRO DE MANUEL julio cortázar


Não era tão difícil, mas eu não soube explicar direito. A questão é, simplesmente: que o caminho mais curto entre dois pontos não é uma reta, mas uma curva. Em vez disso, eu disse a ela que o Cortázar, na verdade Andrés, um dos personagens do Livro de Manuel, fazia uso da geometria não-euclidiana para poder, em sua cabeça, sintetizar Ludmilla e Francine, para poder fugir ao dualismo do Esta ou Aquela, do Certo ou Errado.

Se ela tivesse citado Gauss, ou dito Sim, ele, o tal Andrés, precisava de uma geodésica, não teria sido tão sublime. Porque, em vez de dizer Gauss, ou Curva geodésica, ela olhou para mim e disse apenas Porra, muito devagar, com um ponto de exclamação no final.

10.11.14


"Sartre, sempre dividido entre o marxismo (científico) e o existencialismo (o contrário), assustou-se exactamente como Descartes. Declarou muito simples e honestamente que, embora seja impossível reconhecer a existência do outro, há porém que reconhecê-la como evidência que salta aos olhos. E aqui desaba dramaticamente toda a filosofia de Sartre, todas as suas possibilidades criadoras, e este homem dotado de um génio extraordinário torna-se um pobre diabo (marxismo-existencialismo) que, no fundo, é obrigado a fazer uma filosofia de concessões."

(Witold GOMBROWICZ, Curso de filosofia em seis horas e um quarto, 2ª ed., trad. Telma Costa, Lisboa: Teodolito, 2012, p. 66, 67.)

9.11.14

A FESTA DA INSIGNIFICÂNCIA milan kundera


Eu disse a ela que era um romance leve. Ela folheava o livro curiosa: abria em qualquer página, lia um trecho, fechava o livro para tornar a abri-lo ao azar, lia mais um parágrafo; ao fim, disse que não sabia, que talvez sim, talvez.

No aeroporto, depois de pedir uma cerveja, alguma coisa para comer, depois de me sentar perto de uma das paredes envidraçadas e olhar a hora, eu terminei de ler o livro. As páginas que faltavam deram para as duas horas de espera; o romance do Kundera terminou um pouco antes dela chegar.

16.9.14

O PROFESSOR cristovão tezza



A narrativa do livro cobre apenas algumas horas: o professor Heliseu acorda, se levanta da cama, toma café da manhã, se banha e depois se veste. O personagem percorre um trajeto preciso e diminuto, de um cômodo do apartamento para o outro. Nessas poucas horas, entretanto, ele repassa momentos de sua vida, seus últimos anos, e o tempo do romance se expande, aparecem os personagens, a ação se desenrola e o livro se arma para o leitor sobre múltiplos encaixes.

A busca do tempo perdido, a rememoração dos fatos passados tem como gatilho, em O professor, o discurso de agradecimento que Heliseu irá proferir mais tarde, ainda naquele dia, ao receber uma homenagem na universidade. Mais do que simples resgate de vivências, a busca a que se entrega o professor do Tezza diz de um impulso para entender e ressignificar o passado.

24.8.14

HISTÓRIA DO PRANTO alan pauls


Quando estava em Córdoba, eu acordava cedo, tomava o café da manhã e depois fazia uma caminhada por La Cañada. Na volta, pela margem oposta, eu costumava parar na Plaza de la Intendencia; pelo excesso de sol e pela falta de árvores, logo mudei minha parada habitual para a Plaza Marqués de Sobremonte, que ficava ao lado. Ali, eu pegava o livro com os contos do Bolaño e lia até a hora do almoço.

Em algum daqueles dias, havia uma mulher no banco em frente ao meu, uma mulher que lia este livro: História do pranto. Mas ela ria por causa do livro, ria em vez de chorar. Fiquei olhando para ela, com meu livro esquecido nas mãos. Como ainda não conhecia o Alan Pauls, eu criava teorias tentando explicar como algo chamado História do pranto podia fazer rir e não chorar.

14.7.14

COMO FUNCIONA A FICÇÃO james wood


Quando era criança eu abria os relógios para ver o que havia dentro deles. Desmontava também meus carrinhos a pilha, arrancava os motores e os ligava em seguida sem um grande propósito além de os ver funcionando. Anos depois ganhei alguns livros em que a história e a mecânica dos aviões estavam resumidas para saciar minha curiosidade. E agora eu fui à livraria onde trabalhava, dei uma olhada pelas estantes, arrumadas ainda da mesma forma, parei os olhos na capa colorida, li o título, achei-o pretensioso mas ainda assim não resisti e levei:

Como funciona a ficção, do James Wood. É claro que explicar o funcionamento de um romance é mais difícil do que demonstrar que a diferença de pressão na parte de cima e de baixo de uma asa gera a sustentação, em outras palavras: o voo. Eu era ainda criança e já sabia que se invertesse os polos de um motor elétrico ele rodaria para o lado oposto; mas como explicar por que, ou melhor, como a ficção funciona?

8.7.14

UMA SOLIDÃO DEMASIADO RUIDOSA bohumil hrabal


A professora ia na frente. Atrás dela, em fila, seguiam as crianças. Cada uma delas tinha a mão direita pousada sobre o ombro direito da criança que estava à frente. A primeira criança dava a mão à professora. A longa centopeia assim formada, debaixo do sol, caminhava em linha reta, precisa e objetiva. Iam todos em direção à fábrica.

Lá dentro, os operários trabalhavam usando luvas azuis-claras e laranja. Os caminhões a todo momento despejavam novos pacotes. Os operários rasgavam o papel dos pacotes e retiravam os livros. Um a um, os livros tinham as capas arrancadas, depois os miolos com as páginas eram arremessados para uma esteira rolante. No final da esteira: a enorme prensa hidráulica que transformava os livros em cubos de papel anônimo.